Pesquisa Comparativa COVID-19

Detalhamento da Pesquisa Comparativa COVID-19

O que explica as diferentes respostas ou ações governamentais à pandemia da Covid-19 entre os países da América Latina?

Síntese da Pesquisa

A pandemia da Covid-19 pode ser considerada como uma crise sem precedentes que envolveu uma mistura de problemas e consequências não apenas epidemiológicos, mas também sociais, econômicos e políticos. Isso justifica a necessidade de entender, explicar, acumular conhecimento sobre esse fenômeno de uma perspectiva multidimensional e multiprofissional, apesar de que, passados poucos anos, parece que o evento foi silenciado. Apresentar os resultados dessa pesquisa, realizada no âmbito do Núcleo de Pesquisa em Gestão e Políticas Públicas (Publicus), busca recuperar essa memória: entender, lembrar e aprender.

América Latina: 14 países analisados na pesquisa comparativa
14
Países Analisados
4
Universidades
CNPq
Financiamento

O Ponto de Partida

O ineditismo e o escopo da crise provocada por um fator exógeno aos sistemas políticos de cada país, suscitou a reflexão sobre como alguns deles se saíram melhor no gerenciamento da pandemia do que outros, quais foram suas ações e políticas públicas e suas consequências. Mas, em menor medida, foram feitos estudos que buscaram identificar os fatores que explicam essas ações, ou seja: porque os governos fizeram o que fizeram ou porque deixaram de fazer o que era esperado a partir de recomendações de organizações nacionais e internacionais com expertise reconhecida no trato de epidemias e seus efeitos e a partir do conhecimento do que parecia ter funcionado melhor.

Frente aos desafios colocados pela pandemia da Covid-19, tornou-se evidente que alguns países enfrentaram melhor a crise sanitária então desencadeada. Se a crise afetou a todos, as ações governamentais foram diferenciadas em função das formas de gestão da crise e ainda pelas condições vigentes em cada país, como situação socioeconômica; características do sistema de bem-estar e, particularmente do sistema de saúde; qualidade da democracia; aderência dos governantes às orientações da OMS, o que sinalizaria para uma atitude negacionista no caso da resistência em aderir a essas orientações; entre outros fatores.

A Pesquisa Comparada na América Latina

A pesquisa, cujos principais resultados estão apresentados nesse site, foi realizada com o auxílio do CNPq e buscou dar uma contribuição no sentido de identificar os fatores que explicam as ações e políticas governamentais, ao desenvolver uma abordagem empírica e analítica para melhor entender a política de enfrentamento da pandemia. Para isso, foi feito um estudo comparado de 14 países da América Latina com foco principal nas ações governamentais no gerenciamento da pandemia, considerando-se não apenas aquelas relativas à saúde, mas também as medidas não farmacológicas e as de suporte socioeconômico e de ativação da economia.

Pergunta Central da Pesquisa

"O que explica as diferentes respostas ou ações governamentais à pandemia da Covid-19 entre os países da América Latina?"

Em segundo lugar, o projeto pretendeu identificar efeitos das ações governamentais no percurso da pandemia e sobre a sociedade, particularmente os efeitos epidemiológicos e os efeitos socioeconômicos, nesse caso, apenas de forma descritiva, sem construir modelos causais, a partir do pressuposto da diversidade e complexidade dos fatores a influenciar o maior ou menor sucesso em conter as mortes e o aumento da pobreza em decorrência da pandemia, o que fugiu ao escopo da pesquisa.

Marco Teórico

O pressuposto é que o percurso da pandemia é resultado de escolhas, mas dentro de determinadas condições institucionais. Na explicação das ações governamentais no gerenciamento da pandemia, foco principal desta pesquisa, consideramos como possíveis variáveis que afetam essas escolhas de políticas públicas, quatro conjuntos de fatores:

Comportamento Político

O comportamento político do chefe do executivo nacional, particularmente em relação ao binômio negacionismo/ciência;

Condições Socioeconômicas

As condições socioeconômicas que fornecem o cenário pré-pandemia no qual as autoridades governamentais tomam as decisões, e que, por um lado, podem tanto constranger ou favorecer as ações emergenciais na crise e, por outro, também afetar o percurso e os resultados da pandemia;

Condições Institucionais

As condições institucionais no âmbito das quais as autoridades governamentais tomam as decisões, as quais também podem constranger ou favorecer as ações governamentais e, ainda, afetar os efeitos da pandemia no sentido de minimizá-los ou agudizá-los. Foram consideradas três condições institucionais: i) a natureza e abrangência do regime de bem-estar; ii) a inclusividade e qualidade do sistema de saúde; e iii) a qualidade da democracia, a partir do suposto que em países mais democráticos é de se esperar, maior pressão por parte da população e das instituições democráticas por ações mais efetivas.

Essas condições econômicas e institucionais fornecem diferentes tipos de recursos e ou demandas aos governantes. Mas, ainda assim, são recursos passíveis de serem mobilizados de diferentes formas, podendo ser aproveitados de forma eficiente ou negligenciados, além de terem sempre alguma elasticidade em momentos de crises, a partir de decisões e ações governamentais.

Hipótese da Pesquisa

"as ações governamentais para o enfrentamento da Covid-19 ocorrem dentro de uma moldura que inclui as condições socioeconômicas e as características dos sistemas de bem-estar e do sistema de saúde, mas seu uso no enfrentamento da crise estiveram fortemente relacionadas a fatores políticos, particularmente a posição do chefe do Executivo nacional frente à pandemia, no binômio negacionismo/ciência, e pela qualidade da democracia."

Modelo Analítico da Pesquisa

O diagrama abaixo mostra como os diferentes fatores se relacionam para explicar as ações governamentais durante a pandemia.

CONDIÇÕES INSTITUCIONAIS

  • Sistema de Saúde
  • Sistema de Bem-Estar
  • Qualidade da Democracia

CONDIÇÕES SOCIOECONÔMICAS

IDH
  • Longevidade
  • Educação
  • Renda

COMPORTAMENTO DO EXECUTIVO

👍
Adesão às orientações da OMS

AÇÕES GOVERNAMENTAIS

  • Políticas de Vacina
  • Gastos adicionais ou renúncia fiscal em saúde per capita (GARF Saúde)
  • Resposta Governamental 2020

EFEITOS DA PANDEMIA

  • Sobre a desigualdade de renda
  • Sobre a pobreza
  • Sobre o desemprego
  • Sobre mortes
🦠

O Teste do Modelo Analítico: Construção de Índices e o QCA

Para testar esse modelo, foi feito um estudo comparativo de 14 países da América Latina, para os quais há dados disponíveis e comparáveis para todas as dimensões do modelo analítico, que são: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Equador, El Salvador, México, Panamá, Paraguai, Peru, República Dominicana e Uruguai. Foram excluídos Cuba, Guatemala, Haiti, Honduras, Nicarágua e Venezuela, pela indisponibilidade de dados nas variáveis consideradas.

14 Países Analisados

Argentina
Bolívia
Brasil
Chile
Colômbia
Costa Rica
Equador
El Salvador
México
Panamá
Paraguai
Peru
República Dominicana
Uruguai

Excluídos: Cuba, Guatemala, Haiti, Honduras, Nicarágua e Venezuela

Os elementos que compõem a pesquisa, podem ser considerados como fatores e condições que se inter-relacionam de forma diferenciada em diferentes contextos nacionais. Para cada variável e ou dimensão da pesquisa, foram definidos indicadores, a partir de fontes públicas acessíveis e com dados disponíveis para os países da amostra. Para efeito de comparação e hierarquização dos países e para agregação de indicadores diversos, foram construídos índices sintéticos originais e mobilizados outros de amplo conhecimento.

Qualitative Comparative Analysis (QCA)

Para formalização da comparação e das relações entre fenômenos, condições e efeitos, foi utilizada a ferramenta QCA (Qualitative Comparative Analysis) que é útil para estudos comparativos de poucos casos e para pensar os fenômenos resultantes de condições relacionais que são configuradas a partir da sua relação com o contexto. Com esse método, são identificadas associações entre determinadas condições e o outcome, levando em conta o conjunto de configurações dos casos e não somente o efeito particular de uma variável sobre o outcome, daí a identificação desse método como 'configuracional'. Por meio de testes e combinações lógicas, são exploradas relações de suficiência e causalidade para a análise de fenômenos multicausais, em que se busca uma generalização limitada no tempo e no espaço, a partir de casos selecionados intencionalmente e considerados conjuntos difusos.

Índices Utilizados

Índices Sintéticos Construídos

IAG

Índice de ações governamentais – o fenômeno de interesse

IBS

Índice de Bem-estar Social – uma das condições institucionais

ISS

Índice dos Sistemas de Saúde - uma das condições institucionais

Adesão OMS

Adesão do governo às recomendações da Organização Mundial da Saúde - posição do chefe do executivo

Índices de Fontes Externas

IDH

Índice de Desenvolvimento Humano (proxy de condições socioeconômicas)

Índice de Democracia

The Economic Intelligence Unit – um índice composto de qualidade da democracia

Principais Resultados

A tabela abaixo apresenta os valores dos índices construídos para todas as dimensões explicativas e também daquilo que se pretendeu explicar, ou seja, as ações governamentais (IAG). Os índices variam de 0 a 1, sendo 1 o melhor valor ou a melhor situação, e zero, o pior. Os valores estão organizados em ordem decrescente de acordo com o valor do IAG.

Para as dimensões explicativas IDH, DEM e ISS, foi considerado o ano de 2019, que antecede a pandemia, visando identificar a situação dos países antes do seu advento. Para o cálculo do IAG foram consideradas as ações governamentais realizadas em 2020 e 2021, pois a partir dessa data, diminuem as diferenças entre os países com a chegada das vacinas. O indicador relativo à posição frente às recomendações da OMS foi construído considerando essa posição durante a pandemia e o índice IBS foi calculado a partir de cálculos estatísticos descritos na nota técnica específica.

Tabela 1 – Matriz de Indicadores

País
IDH
IBS
DEM
ISS
OMS
IAG
Panamá0.8050.517.180.591.01.00
Chile0.8550.978.280.541.00.79
Colômbia0.7520.397.040.731.00.78
Argentina0.8420.956.950.651.00.77
Peru0.7620.196.530.401.00.74
Brasil0.7540.736.920.260.00.46
Costa Rica0.8090.998.160.841.00.46
Uruguai0.8091.008.610.941.00.46
Rep. Dominicana0.7670.176.320.331.00.45
Equador0.7400.196.130.430.50.31
Paraguai0.7170.266.180.201.00.16
El Salvador0.6750.005.900.191.00.12
México0.7580.546.070.280.00.12
Bolívia0.6920.215.080.410.50.00

Fonte: dados da pesquisa, elaboração própria

Para testar o modelo, foi utilizada a ferramenta do QCA fuzzy, constatando-se a validade do modelo explicativo, além de terem sido identificadas diferentes configurações que levam ao resultado desejado, ou seja: ações governamentais mais robustas.

Os resultados são detalhados no relatório da pesquisa, que pode ser acessado aqui. Destacamos abaixo os principais:

O sistema de saúde é importante, mas sozinho não é suficiente para que governos reagissem de forma satisfatória; isso aconteceu nas situações em que os governos também aderiram às recomendações da OMS. A combinação de um sistema da saúde forte com a adesão às recomendações da OMS foi suficiente para que Colômbia, Panamá, Argentina, Chile, Costa Rica e Uruguai adotassem ações de governo satisfatórias no enfrentamento à Covid‑19. Embora Costa Rica e Uruguai não sejam exatamente um exemplo de ações governamentais satisfatórias, também não podem ser considerados casos de fracasso e assumimos que fazem parte do conjunto de países com o resultado de interesse, reconhecendo certa ambiguidade nesses casos intermediários.

O modelo analítico utilizado está dentro dos limites indicados tanto em relação à consistência quanto à cobertura, e explica 72% dos casos onde foi observado o resultado de interesse (ações governamentais adequadas).

A combinação da ausência de IDH alto, sistema da saúde fraco, ausência de democracia plena e a adesão parcial ou baixa às recomendações da OMS foi suficiente para a não adoção de ações de governo satisfatórias na Bolívia, Equador, México e Brasil. Essa combinação cobre 4 dos 9 casos onde as ações de governo deixaram a desejar, embora no caso do Brasil haja certa ambiguidade.

O modelo não explica o caso do Peru, que é um caso desviante: teve alto IAG, mas, contrariando as expectativas, não se encaixou em nenhuma configuração suficiente.

Explore os Resultados Completos

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Efeitos da pandemia

A pesquisa buscou também identificar alguns efeitos da pandemia e suas variações entre os países pesquisados. A ausência de dados comparáveis para todos os países, restringiu bastante a análise, particularmente a imputação causal desses efeitos, tornando a análise apenas descritiva. Reforça isso, a dificuldade de mobilizar um modelo causal para cada tipo de efeito, uma vez que, presumidamente, cada efeito pode ser explicado por um conjunto de fatores distintos, além das ações governamentais na gestão da pandemia – foco da pesquisa –, o que tornaria o estudo bastante complexo para além de seus objetivos originais.

A consequência mais dramática da pandemia foi a morte em decorrência da doença e de suas complicações, o que variou entre os países em decorrência de vários fatores, alguns relacionados às ações governamentais para enfrentamento da pandemia, outros relacionados às condições de saúde da população, à sua composição etária, uma vez que os principais grupos de risco eram os idosos. Para identificar a mortalidade decorrente especificamente da Covid-19 foi usado o indicador "excesso de mortes" que considera o crescimento do número de mortes durante a pandemia versus a média de anos anteriores, sendo o excesso de óbitos estimado pela razão entre os óbitos observados e os óbitos esperados. Com isso, é ajustado o número de mortes às características de cada país, podendo o excesso ser considerado como resultante da pandemia, supondo-se que outros fatores não se modificaram (Correia, 2021). Os resultados foram também transformados em índices, sendo um, o melhor valor, ou seja, menor excesso de mortes, e zero o pior, ou seja, maior excesso de mortes.

Os países se distribuíram em três grupos: o primeiro grupo engloba os países com índices melhores (maiores do que 0,8) e nesse grupo estão República Dominicana, Uruguai, Costa Rica, Panamá e Chile; o segundo grupo apresenta valores intermediários (entre 0,6 e 0,8) e engloba El Salvador, Paraguai, Argentina, Brasil e Colômbia; e no terceiro grupo com índices mais baixos, ou seja, com registro maior de mortes que podem ser associadas à Covid-19, estão Equador, México, Peru e Bolívia.

Para identificar os efeitos socioeconômicos da pandemia de Covid-19, foram utilizados os indicadores de extrema pobreza e pobreza, a taxa de desemprego total e o Índice de Gini. Os dois primeiros medem os efeitos diretos na população, relacionados às medidas restritivas de circulação de pessoas, que levaram ao fechamento de todas atividades econômicas não essenciais. A maioria dos governos estabeleceram medidas de suporte econômico, tanto para as empresas com vistas a evitar o desemprego, ampliar o crédito e postergar o pagamento de dívidas, como diretamente para a população mais vulnerável. Entretanto, essas medidas variaram em quantidade e duração, tanto em função da capacidade de gasto dos países quanto por decisões políticas, e não foram suficientes para se contrapor à desaceleração das atividades econômicas. Por sua vez, o Índice de Gini mede a desigualdade de renda dos países, e foi utilizado a partir do suposto de que ela tenha sido ampliada no período crítico da pandemia.

Todos os países da região selecionados, exceto a República Dominicana que praticamente permaneceu estável, tiveram aumento do desemprego no primeiro ano da pandemia (2020). No segundo ano (2021) todos tiveram uma recuperação com redução do desemprego, sem, contudo, alcançar as taxas de 2019. O Brasil, que tinha a maior taxa de desemprego em 2019, foi superado nos anos da pandemia pela Colômbia e pela Costa Rica, que sofreram maior impacto. Com exceção do México, em todos os outros países o desemprego que já era maior, atingiu mais as mulheres no período pandêmico.

No tocante à variação percentual, entre os anos de 2019 e 2020, Panamá, Bolívia, Peru e México tiveram aumento de mais de 100% no desemprego. A República Dominicana foi o único país da amostra que apresentou variação negativa, uma diminuição de 4,75% no desemprego entre 2019 e 2020. Já na variação de 2020 a 2021, todos os países registraram queda no desemprego variando de 2,7% no Paraguai e de 35,4% na Bolívia. Apenas um único país não apresentou queda: a República Dominicana, registrando um aumento de 26,2% no desemprego.

A pesquisa mediu também a evolução da desigualdade durante a pandemia. Analisando a variação no Índice de Gini entre 2019 e 2020, constatou-se que em 6 países houve aumento da desigualdade (Bolívia, Colômbia, El Salvador, Equador, Peru e Uruguai) e em 5 houve leve redução (Argentina, Brasil, Costa Rica, Paraguai e República Dominicana), sendo que para o Chile, México e Panamá não foi possível essa comparação. Em 2020, também não há um padrão. Comparando 2019 e 2021, apenas 4 países registraram maior desigualdade em 2021 do que no período pré-pandêmico Esses resultados sugerem que a pandemia tendeu a ampliar a desigualdade no seu primeiro ano em um pouco mais da metade dos países considerados, mas não teve efeitos graves na desigualdade de renda depois de dois anos, na maioria dos países, possivelmente refletindo as ações mitigadoras de suporte econômico adotadas por quase todos os países que, em alguma medida, mantiveram a renda daqueles já com renda baixas. Uma desigualdade que já era alta na região, permanece alta, mas se reequilibrando após a pressão inicial da pandemia.