Síntese da Pesquisa
A pandemia da Covid-19 pode ser considerada como uma crise sem precedentes que envolveu uma mistura de problemas e consequências não apenas epidemiológicos, mas também sociais, econômicos e políticos. Isso justifica a necessidade de entender, explicar, acumular conhecimento sobre esse fenômeno de uma perspectiva multidimensional e multiprofissional, apesar de que, passados poucos anos, parece que o evento foi silenciado. Apresentar os resultados dessa pesquisa, realizada no âmbito do Núcleo de Pesquisa em Gestão e Políticas Públicas (Publicus), busca recuperar essa memória: entender, lembrar e aprender.

O Ponto de Partida
O ineditismo e o escopo da crise provocada por um fator exógeno aos sistemas políticos de cada país, suscitou a reflexão sobre como alguns deles se saíram melhor no gerenciamento da pandemia do que outros, quais foram suas ações e políticas públicas e suas consequências. Mas, em menor medida, foram feitos estudos que buscaram identificar os fatores que explicam essas ações, ou seja: porque os governos fizeram o que fizeram ou porque deixaram de fazer o que era esperado a partir de recomendações de organizações nacionais e internacionais com expertise reconhecida no trato de epidemias e seus efeitos e a partir do conhecimento do que parecia ter funcionado melhor.
Frente aos desafios colocados pela pandemia da Covid-19, tornou-se evidente que alguns países enfrentaram melhor a crise sanitária então desencadeada. Se a crise afetou a todos, as ações governamentais foram diferenciadas em função das formas de gestão da crise e ainda pelas condições vigentes em cada país, como situação socioeconômica; características do sistema de bem-estar e, particularmente do sistema de saúde; qualidade da democracia; aderência dos governantes às orientações da OMS, o que sinalizaria para uma atitude negacionista no caso da resistência em aderir a essas orientações; entre outros fatores.
A Pesquisa Comparada na América Latina
A pesquisa, cujos principais resultados estão apresentados nesse site, foi realizada com o auxílio do CNPq e buscou dar uma contribuição no sentido de identificar os fatores que explicam as ações e políticas governamentais, ao desenvolver uma abordagem empírica e analítica para melhor entender a política de enfrentamento da pandemia. Para isso, foi feito um estudo comparado de 14 países da América Latina com foco principal nas ações governamentais no gerenciamento da pandemia, considerando-se não apenas aquelas relativas à saúde, mas também as medidas não farmacológicas e as de suporte socioeconômico e de ativação da economia.
Pergunta Central da Pesquisa
"O que explica as diferentes respostas ou ações governamentais à pandemia da Covid-19 entre os países da América Latina?"
Em segundo lugar, o projeto pretendeu identificar efeitos das ações governamentais no percurso da pandemia e sobre a sociedade, particularmente os efeitos epidemiológicos e os efeitos socioeconômicos, nesse caso, apenas de forma descritiva, sem construir modelos causais, a partir do pressuposto da diversidade e complexidade dos fatores a influenciar o maior ou menor sucesso em conter as mortes e o aumento da pobreza em decorrência da pandemia, o que fugiu ao escopo da pesquisa.
Marco Teórico
O pressuposto é que o percurso da pandemia é resultado de escolhas, mas dentro de determinadas condições institucionais. Na explicação das ações governamentais no gerenciamento da pandemia, foco principal desta pesquisa, consideramos como possíveis variáveis que afetam essas escolhas de políticas públicas, quatro conjuntos de fatores:
Comportamento Político
O comportamento político do chefe do executivo nacional, particularmente em relação ao binômio negacionismo/ciência;
Condições Socioeconômicas
As condições socioeconômicas que fornecem o cenário pré-pandemia no qual as autoridades governamentais tomam as decisões, e que, por um lado, podem tanto constranger ou favorecer as ações emergenciais na crise e, por outro, também afetar o percurso e os resultados da pandemia;
Condições Institucionais
As condições institucionais no âmbito das quais as autoridades governamentais tomam as decisões, as quais também podem constranger ou favorecer as ações governamentais e, ainda, afetar os efeitos da pandemia no sentido de minimizá-los ou agudizá-los. Foram consideradas três condições institucionais: i) a natureza e abrangência do regime de bem-estar; ii) a inclusividade e qualidade do sistema de saúde; e iii) a qualidade da democracia, a partir do suposto que em países mais democráticos é de se esperar, maior pressão por parte da população e das instituições democráticas por ações mais efetivas.
Essas condições econômicas e institucionais fornecem diferentes tipos de recursos e ou demandas aos governantes. Mas, ainda assim, são recursos passíveis de serem mobilizados de diferentes formas, podendo ser aproveitados de forma eficiente ou negligenciados, além de terem sempre alguma elasticidade em momentos de crises, a partir de decisões e ações governamentais.
Hipótese da Pesquisa
"as ações governamentais para o enfrentamento da Covid-19 ocorrem dentro de uma moldura que inclui as condições socioeconômicas e as características dos sistemas de bem-estar e do sistema de saúde, mas seu uso no enfrentamento da crise estiveram fortemente relacionadas a fatores políticos, particularmente a posição do chefe do Executivo nacional frente à pandemia, no binômio negacionismo/ciência, e pela qualidade da democracia."